A denúncia

OEDLA · 2026-08-24T17:14:51.814000-03:00

A denúncia

Quanto ao conteúdo narrativo do seu pronunciamento, Michelle organiza a ideia de perseguição pela divisão daqueles que seguem o líder, forma como intitula Jair Bolsonaro, e aqueles que se opõem aos valores conservadores defendidos pelo mesmo. Isto é, tudo o que contraria ou não segue à risca as determinações de Jair, configura um ataque. o PT (Partido dos Trabalhadores) e tudo o que é considerado de “esquerda” é colocado na categoria de ataque ou perseguição.

Como exemplo inicial dessa perseguição, Michelle aponta a situação político-partidária do estado do Ceará. Nela, tece uma crítica a união de Ciro Gomes (figura que categoriza como esquerda) e Pastor Alcides (Alcides Fernandes de Moura), uma traição aos olhos da coerência dos valores conservadores e que em defesa da vontade de Bolsonaro, Alcides e seu filho, André, deveriam apoiar Girão (Luiz Eduardo Grangeiro Girão) senador pelo Partido Novo, por estar mais alinhado a pureza ideológica que defende. Ou seja, a oposição ao aborto e a defesa da vida desde a concepção. Fator esse muito levantado por Michelle como fator umbilical que caracterizaria a luta das mulheres conservadoras. 

A união de Alcides e Ciro Gomes foi, contudo, apoiada por Flávio e isso é alvo de críticas por parte de Michelle. Para ela, seu vídeo não tem intenção de questionar a escolha da candidatura de Flávio como sucessor de Jair, mas apontar que o escolhido pode não estar tão de acordo com a coerência conservadora, como defende. Trechos em que busca argumentar seu ponto de vista são: 

“[...] se ele [Flávio] quisesse falar comigo, já teria falado.” 

Referenciando sua oposição pública contra Ciro Gomes unindo-se à Alcides. 

“Minha prioridade é cuidar da minha família, meu futuro político está nas mãos de Deus.” 

Demonstrando que segue o papel de gênero determinado à ela, ao mesmo tempo que justifica sua atuação política a partir da religião.

“Ele [Flávio] e os irmãos me atacaram” 

“Eles não se importam, para eles tudo é político.”

Michelle argumenta aqui que sua posição em relação à política vem do contato com as bases sociais e pessoas reais, enquanto os irmãos Bolsonaro vêem a política de forma egoísta. Michelle se coloca aqui como uma figura “anti-sistema”. 

 

“Essa é a minha missão e dela só Deus me tira”

Sobre sua atividade política como presidente do PL mulheres. 

Sendo assim, Michelle disputa o futuro das candidaturas apoiadas pelo PL, e coloca em xeque a própria candidatura de Flávio, ao mostrar que ele não está de acordo com os valores tradicionais da direita. Caracteriza o apoio dele a Ciro e os ataques contra sua pessoa como uma APUNHALADA. O que fragiliza a legitimidade da posição de Flávio, pois Michelle se coloca como a porta-voz MAIS CONFIÁVEL das vontades do marido, sendo assim, Michelle indiretamente induz a ideia de que Flávio pode ser um traidor ou pelo menos, alguém para não se depositar confiança eleitoral por parte de seu público, as mulheres conservadoras.

“Em matéria de política eu faço o que só eu e ele [Jair Bolsonaro] combinamos”.

Michelle também eleva o debate quando organiza seu vídeo em denúncia àqueles falsos bolsonaristas, deslocando o inimigo da tradicional oposição de esquerda para os falsos bolsonaristas que a atacaram após a prisão de Jair. A base de seu argumento é colocada na ideia de que como mulher, segue fielmente os papéis de gênero e não viola nenhum tipo de hierarquia social conservadora, tendendo inclusive a ficar quieta diante de injustiças para preservar a ordem da família, mas que em nome das eleitoras e da justiça, denuncia aquilo que vê como traição ou falsidade perante seu público. Parte do argumento também está colocado sobre a ideia de que ela apenas se pronuncia com autorização do marido e reforça isso ao mostrar que sua denúncia sobre as disputas e filiações no Ceará foi apoiada pelo ex-presidente. Sendo assim, sua posição como mulher é congruente à coesão conservadora e seu papel é de revelar a verdade e proteger as mulheres brasileiras.

É importante, portanto, entender por qual motivo Michelle dá atenção ao eleitorado feminino. 

Ao abrir o vídeo, a ex-primeira dama se comunica diretamente com o público feminino, apresentando sua trajetória no PL Mulher como resposta à crescente necessidade de representação das mulheres conservadoras, supostamente abandonadas pelo partido. Para dar força a isso, faz referência então à caminhada com mulheres por diferentes estados brasileiros no ano de 2022 durante as propagandas eleitorais a favor do, na época, candidato à presidência Jair Bolsonaro. Em decorrência disso, Michelle reivindica êxito em sua atuação, desafiadora mas vitoriosa sob a condição de perseguição e abandono. A constatação do sucesso se faz verdadeira e o partido se torna o maior movimento partidário feminino do Brasil, e com isso a expressão “nós pintamos o brasil de rosa” surge no discurso. 

   

A partir dessa constatação, pode-se notar de onde parte a figura da mulher que Michelle defende. O papel feminino se resume a submissão masculina, performace de feminilidade e posição contrária ao aborto, protegendo a família tradicional brasileira cis e hetero-normativa. Além disso é biologicamente orientada, exclui mulheres transgênero e simultaneamente se organizam com base na religião cristã, seja ela católica ou evangélica. Sendo assim, além de uma simples repetição dos padrões de gênero presentes nas cores, a cor rosa representa a intencionalidade por trás do discurso. 

Outro eixo que Michelle mobiliza é a religião. Por meio desta, defende sua participação política como uma missão concebida pelo sobrenatural, ou seja, desloca um direito conquistado por movimentos feministas na esfera da cultura e política, a uma missão religiosa. Somado a isso, simultaneamente justifica sua participação na política na esfera pública sob o manto da permissão familiar concedida pelo marido. Dessa forma, justifica para seu eleitorado que um direito adquirido por meio da luta feminista é na verdade uma reprodução da hierarquia conservadora e no limite, um direito superior concedido à ela, que não pode ser questionado pois está na esfera do sobrenatural. 

Além disso, termos como “capilaridade” e “representatividade", comumente articulados pelos movimentos feministas e do espectro político da esquerda, são mobilizados no vídeo de forma a ressignificar a terminologia e propor a perpetuação dos valores conservadores. Isto é, Michelle se apossa de elementos discursivos normalmente mobilizados por sua oposição e os reorganiza como arma discursiva contra seus novos oponentes, os falsos bolsonaristas. Um importante movimento, pois constrói seu próprio público de eleitoras, as mulheres de direita. Aponta, durante o vídeo, além disso, que suas eleitoras e apoiadoras têm peso no apoio da candidatura de Flávio Bolsonaro, e mostra que mesmo ao o denunciar, tem poder que reverbera de forma independente. Sendo assim, a utilização dessa terminologia em disputa legítima a presença de mulheres defensoras da ordem conservadora. 

Em síntese, a análise do pronunciamento de Michelle revela uma estratégia discursiva que vai além da simples defesa de valores conservadores. Ao deslocar o inimigo da esquerda tradicional para os "falsos bolsonaristas", ela não apenas reafirma sua lealdade ao marido, mas também constrói uma posição de autoridade política autônoma dentro do PL. Desse modo, Michelle utiliza a religião e os papéis de gênero como instrumentos de legitimação, ao mesmo tempo que ressignifica termos progressistas para fortalecer sua própria base eleitoral feminina. Sua fala, portanto, não é apenas um desabafo pessoal, mas um movimento calculado para disputar o futuro do bolsonarismo e deslegitimar potenciais adversários internos.

Na sexta-feira, dia 26 de junho de 2026 Michelle Bolsonaro, ex-primeira dama, publica em seu perfil nas redes sociais um vídeo polêmico, em que denuncia incongruências ideológicas dentro de seu partido (até aquele momento, PL Mulher) e principalmente, a atuação suspeita de Flávio Bolsonaro, o sucessor de Jair. 

​👉🏻 Arraste para o lado para compreender como Michelle mobiliza diferentes estratégias discursivas e visuais no recente e polêmico vídeo.

Link para bibliografia: https://docs.google.com/document/d/138cbSUVTUIzhnhwHKrO9V4sPMX8qSHKxxyPF3MejopM/edit?usp=sharing

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